Malévola, Assexualidade e o Amor Verdadeiro


Atenção! Este post contém spoilers!

Sei que pode parecer tarde publicar essa resenha, mas fica o aviso que esse blog não segue tendências. Se eu quiser resenhar Drácula de Bram Stoker que é dos meus filmes preferidos, eu o farei.

Foi com ceticismo que aceitei ir ao cinema acompanhar minha mãe em Malévola. O meu interesse era mais em fazer companhia a ela do que pelo filme, visto que não sou fã de filmes de contos de fada da Disney. Disney, para mim, que poderia chamar de especiais foram algumas produções de Tim Burton.
A princípio pareceu um filme sem novidade alguma. Os velhos clichês com fadinhas voando, florestas, encontros de amor e toda essa vibe naturalista e piegas.
Porém, a partir de um certo ponto do filme, fica perceptível que ele não se trata de um conto de fadas, um remake da Bela Adormecida como imaginei e acredito eu, muitos imaginaram, mesmo que o título carregue o nome da vilã.
Trata-se de uma produção original, sob o ponto de vista de Malévola. E só por esse motivo para mim já valeu, pois sempre dei preferência aos vilões das estórias, por mais que eles acabem perdendo, o que não acontece na obra em questão.
Seu roteiro é intrigante e original porque não fica naquele clichê do bem perfeito e do mal sem nenhum traço de bondade estilo novelas mexicanas.
É humano, meio termo, como o somos nós.
Deixa explicado muita coisa que ficou em off no conto de fadas, mostrando de forma realista que muitas pessoas por diversas vezes machucam porque também são machucadas. Afinal, é totalmente sem sentido uma pessoa amaldiçoar um bebê "do nada".
Malévola teve seus motivos e a partir dele, cessa aquele romantismo abobalhado do início do filme. Mostra que quem faz promessas de amor mente, trai, como Stephan fez jurando um amor verdadeiro a ela retirando suas asas por ambição para tornar-se rei. E que nem sempre quem comete tais coisas sai ileso porque pode encontrar pelo caminho alguém como... Malévola.
No dia do batismo ela invade o palácio e amaldiçoa Aurora para que aos dezesseis anos (idade que lhe foi jurado amor verdadeiro) ela fira seu dedo e caia num sono profundo, acordando apenas com o que considerava impossível: o beijo de um amor verdadeiro.
Preocupado, o rei deixa três fadas claramente incompetentes de cuidar de uma criança e quem acaba salvando Aurora dos perigos durante seu crescimento é a própria Malévola, com a intenção de que não seja evitada que a maldição lançada seja cumprida.
O tempo transcorre, Aurora torna-se adolescente e começa a perseguir Malevóla, na ilusão de que ela seja sua fada madrinha, alegando que sempre a sentiu por perto. Como na infância, Malévola mostra-se impassível e fria.
Uma frieza que acaba se esvaindo. É quando acontece o arrependimento e ela cai em si que a vingança não valeu a aquela pessoa inocente e procura reverter o quadro. Mas rapidamente percebe que a tentativa é de desfazer o impossível: o beijo de um amor verdadeiro.
O beijo que muitos pensaram virem de um cara o qual vinha flertando e na tentativa vã a beijou tentando salvá-la.
Arrependida, diante do leito de Aurora, Malévola admite que apesar de tudo, sempre a cuidará e não deixará que nada de mal lhe aconteça, dando-lhe um beijo na testa que, surpreendentemente, acorda a garota do sono profundo.
Eu achei toscos comentários que ouvi e li dizendo que devia ter rolado um beijo lésbico no filme.
Primeiro porque o filme pareceu ter sido feito para mulheres e claro que pelo título atrairia também muitas crianças, que não precisam ver beijos heterossexuais ou homossexuais o tempo todo para acreditarem que a arte sem isso fique desinteressante. E segundo, porque a intenção do autor foi outra.
O interesse do autor de Malévola foi exatamente mostrar que amores verdadeiros não precisam vir de um romance, de uma sociedade onde tudo gira em torno de amor romântico que inevitavelmente acaba em sexo. Eu não tenho nada contra o sexo. Só achei surpreendente o autor não deixar rolar romance nenhum ali, não se esquecendo das pessoas que mesmo que não sejam a maioria (ou por defesa fingem não ser) possuem outras prioridades na vida, outras orientações sexuais como a assexualidade.
Malévola construiu em vigília o amor verdadeiro.
Amor esse que temos por nossos pais, nossas mães, nossos irmãos e irmãs, amigos...
Amor puro, asseuxal, que nem sempre demonstranmos porque ele é sem interesse em obter prazer.
Sem interesses. Esse é o amor verdadeiro que, caro leitor, aceitando isso ou não, há de se convir que não acontece em amores "românticos", onde obrigatoriamente têm que existir uma troca ou ele simplesmente "acaba".

Alex XXY

Perdas e Ganhos


Não. O título do texto não está errado.
Somos tão habituados com o negativismo que a palavra perdas em nossas mentes obrigatoriamente vem acompanhada da palavra danos.
Perdas e danos.
E esquecemos que as perdas vem diversas vezes trazendo ganhos.
A única perda que traz um dano devastador é a da morte.
Essa perda não dói.
Ela rasga, dilacera por dentro.
Dizem que os primeiros dias de luto são os mais difíceis, porém, quem já sofreu esse tipo de perda sabe que lembranças e dores são amenizadas, mas todos os dias de sua vida há a obscuridade do luto.
Alguns trazendo um sorriso da lembrança de momentos bons, mas sempre acompanhados de uma ou duas lágrimas.
Quanto às demais perdas...
Drummond dizia que a dor era inevitável e o sofrimento opcional.
É compreensível que quem esteja passando por uma perda muito recente nesse momento enxergue tudo enegrecido diante de seus olhos e não aceitará essa reflexão de modo algum.
Compreensível se for recente.
Quantas vezes não desejamos ter uma máquina para voltar no tempo ou um botão de pause para certas ocasiões de nossas vidas? Todos nós já tivemos esse pensamento ao menos uma vez.
A realidade é que pessoas vão embora de nossas vidas, seja um romance ou uma amizade. E por algum motivo talvez masoquista queiramos eternizá-las.
Por mais que lutemos, há algo muito mais forte que acaba fazendo com que nosso amor, afeto, admiração e dependendo das atitudes, até o respeito que tivemos por elas acabem.
Não queira voltar no tempo.
Não queira apertar um botão de pause em sua vida.
A vida é movimento e pode ser que estas pessoas tenham partido porque sua vida precisa de espaço para coisas melhores que, se elas ficassem, impediriam que acontecessem.
Sofra com a ausência, você tem todo o direito, mas não torne isso o centro do seu mundo.
Seu mundo não pertence aos outros. Pertence a você.
Nunca se esqueça que qualquer pessoa, não importa qual seja, faz a diferença na vida de outra. E nesse momento com certeza sua presença faz toda a diferença na vida de alguém.
Aprenda a usufruir da ausência que lhe ofereceram, renove a vida, arrisque-se a fazer o que não fazia antes e verá que a vida te compensará com o que você acreditava ser impossível.
Perceberá que aquela ausência que te causaram vai ficando cada vez mais distante até se esvair.
Aceite e enfrente todas as ausências, menos a sua.

Nunca ausente-se de si mesmo.

Alex XXY